O
custo da vaidade
Lúcia Vânia
O
governo Lula acumula imensa dívida
com a nação. Para frustração
e perplexidade dos brasileiros, o fracasso
da área social decepciona até mesmo
os petistas mais pacientes. A área
econômica venceu a queda-de-braço
com a área social. Fico à vontade
para criticar a fragilidade da política
social, porque apóio minha avaliação
no desempenho orçamentário.
E são os números do Sistema
Integrado de Administração
Financeira (Siafi) que comprovam a falta
de prioridade para investimentos que poderiam
acelerar programas e ações
sociais.
Apenas
8,6% dos recursos previstos no Orçamento
de 2003 foram efetivamente investidos na área
social. O pior desempenho coube ao Ministério
da Assistência Social: dos R$ 177 milhões
orçados, apenas R$ 2 milhões,
ou 1,1%, foram executados. Nas áreas
de saneamento e habitação,
repetem-se as baixas execuções,
inferiores a 2%.
O
mesmo se deu em relação à reforma
agrária, uma das bandeiras de campanha
do PT. Para compra de alimentos da agricultura
familiar, gastou-se R$ 5 milhões dos
R$ 400 milhões previstos. E em 2004,
não há sequer previsão
de investimentos.
Há meses,
quando se discutia o formato do Fome Zero,
meu partido, o PSDB, já alertava para
a falta de um programa consistente na área
social. Previ os problemas da centralização,
retrocesso que contraria o disposto na Constituição.
Alertei ainda para o aparelhamento da máquina
pública, com a substituição
de técnicos experientes por militantes.
E reforcei a necessidade de aperfeiçoar
o que havia sido conquistado.
O
governo, no entanto, preferiu desqualificar
todas as experiências anteriores, perdendo
oportunidade de aperfeiçoar a gestão
e imprimir sua marca de excelência,
testada inclusive em diversas prefeituras.
Era
de se esperar naturais dificuldades para
operar ações e programas em
5.561 municípios. O inesperado é que
o Partido dos Trabalhadores ainda coloque
em prática uma agenda social antiga,
sem ousadia, marcada pela inconsistência
na formulação dos programas,
pela falta de cuidado no diagnóstico,
por total desprezo pela eficiência
da gestão e significativo descompromisso
com os resultados.
O
programa Fome Zero, que foi mudando de foco
e objetivos, transformou-se em um guarda-chuva
para 26 programas, 17 deles herdados da Rede
de Proteção Social do governo
Fernando Henrique. E foram exatamente esses
que tiveram melhor desempenho, porque o funcionamento
dos programas já implementados independe
da troca de comando.
Perdeu-se
quase um ano em debates sobre unificação
de programas e o Bolsa-Família acabou
unificando apenas quatro ações
do governo passado. O Primeiro-Emprego também
frustrou a sociedade e ainda não dispõe
de instrumentos para incorporar ao mercado
de trabalho os jovens que estão fora
da escola. E da Farmácia Popular,
ninguém se lembra.
Implantar
programas eficientes demanda tempo: pelo
menos um ano, até chegar à ponta,
ao cidadão mais pobre. Exige articulação
permanente das três esferas: federal,
estadual e municipal. E aí temos o
exemplo de execução orçamentária
mais eficiente exatamente nas ações
implementadas em parceria.
A
bolsa-alimentação, a bolsa-escola,
a Loas, a renda vitalícia, o auxílio-
gás e a merenda escolar tiveram execução
média de 80% até novembro.
Já o Pronaf, o Reforsus, o Seguro
Sagra, entre outros, tiveram baixa execução:
entre 7% e 30%.
A
execução orçamentária
de 2003 desmente, portanto, os discursos,
as solenidades e os lindos cenários
montados para o lançamento de programas
sociais do governo. A esperada prioridade
para o social eram boas intenções
de campanha e foi sabotada por vaidades,
desarticulação entre os ministérios,
bem como superposição de ações.
À oposição
não interessam os desacertos, ainda
mais em áreas que afetam os que
mais precisam da proteção
do Estado. Temos nos mostrado mais do que
dispostos a colaborar, tanto no aperfeiçoamento
do Fome Zero quanto na agilidade para aprovar
o Primeiro Emprego e o Estatuto do Idoso.
Por isso esperamos que os erros cometidos
no primeiro ano não sejam reprisados
neste 2004.
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