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06.03.04

Perdas & Ganhos

Lúcia Vânia*
A escritora gaúcha Lya Luft, mestra na arte de manusear as palavras, encontrou a definição perfeita para titular seu best-seller sobre a atual condição humana. Quando se desperdiçam adjetivos para exaltar a condição feminina, é preciso recorrer à razão para refletir sobre nossas “perdas e ganhos”.

É um desafio desmistificar as armadilhas que criamos e que nos impedem de desfrutar plenamente as conquistas femininas das últimas décadas. Para ocupar espaços negados por séculos, as mulheres pregaram uma igualdade entre os gêneros que, hoje, admitimos, precisa ser revista.

Fruto da emancipação feminina, mas também da necessidade econômica, as famílias dependem cada vez mais das chefias femininas. Hoje, 35% dos lares são comandados por mulheres e somos mais de 40% da força de trabalho. Situação jamais sonhada por nossas avós que precisavam de autorização do marido para viajar ou sair à rua.

Mas, nem tudo são ganhos. Ainda pleiteamos remuneração igual e as mesmas oportunidades conquistadas pelos homens. E, na vida privada, a mulher assume sozinha a dupla jornada e a responsabilidade pelo planejamento familiar.

É um ponto que merece reflexão: o mercado de trabalho nos impôs a dupla jornada? Ou foi a sociedade que negou o suporte necessário ao desempenho dos papéis de mãe e de profissional? Esse é um problema aflige a maioria das trabalhadoras de todas as idades e condições sociais. No entanto, com quem deixar os filhos é tratado como assunto individual e não uma questão de política pública. Cabe a nós o trabalho político de manter essa cobrança permanente, bem como exigir educação de qualidade para crianças e jovens, e uma política eficiente de educação infantil, apoiada por uma rede de creches gratuitas.

Na conta dos ganhos, avançamos na questão do combate à violência contra a mulher, que ganhou maior visibilidade e passou a integrar a agenda nacional. Computamos, também, o maior acesso à universidade e a presença expressiva nos terrenos profissionais estritamente masculinos, além dos avanços do novo Código Civil e nas leis trabalhistas, como a licença maternidade.

Em contrapartida, na lista de perdas, entra o desgaste da saúde provocado pela pressão do cotidiano. Doenças que antes eram tipicamente masculinas, como o câncer de pulmão e doenças cardíacas, atingem hoje maior número de mulheres. Na década de 70, por exemplo, de cada 10 pessoas que sofriam enfarte, nove eram homens. Em 2000, a proporção quase se igualou: menos de 3 homens para cada enfarte feminino.

No afã de conquistar espaço, abrimos mão de nossa condição singular e agora pagamos um alto preço por isso. Portanto, é a nós que compete defender maiores investimentos em políticas de saúde adequadas e melhores condições de trabalho.

As trabalhadoras compõem a maior parcela da população diretamente afetada pelos desalentadores indicadores econômicos. Do total de 2,4 milhões de pessoas procurando trabalho em seis regiões metropolitanas analisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em janeiro, 54,4% eram mulheres. A mesma pesquisa apontou que 18,6% dos desempregados estavam procurando o primeiro trabalho.

A situação preocupante da economia oferece hoje às mulheres a oportunidade de retomar bandeiras erguidas com sucesso em outros tempos contra a inflação e em defesa do controle de preços. Ainda mais: devemos nos posicionar de forma determinada contra a corrupção e em defesa da aplicação correta dos recursos públicos, valorizando o bom desempenho de prefeitas de diversos partidos.

Sabemos que as desigualdades não estão relacionadas ao fato de termos nascido homens ou mulheres. Mas, sim das relações e dos papéis sociais. Sendo as relações entre os gêneros construídas culturalmente, elas podem ser transformadas. O que depende da maior participação da mulher em várias esferas, principalmente a política.

Há um imenso espaço a ser ocupado pela mulher na vida pública, seja nas câmaras de vereadores, nas assembléias, no executivo ou no judiciário. Mas é preciso perder pudores e ampliar nossa participação partidária, ainda reduzida nas executivas nacionais e regionais dos partidos, pois isso se reflete no resultado da produção legislativa, apesar da Lei de Cotas. E, por conseguinte, nas leis que regulam costumes e hábitos da sociedade.

Tenho a expectativa da mudança desse quadro, a partir da reforma política que pode oferecer um eficiente instrumento para estimular o acesso da mulher ao exercício da política: o financiamento público de campanha. Dessa forma, haverá maior democracia na participação partidária, de forma a consolidar nossos ganhos. Eles serão efetivos a partir do nosso empenho em participar ativamente da vida pública. Sem recorrer às receitas fáceis da sedução, mas sem abrir mão do pensar e do agir feminino. Não podemos mais delegar apenas aos homens a responsabilidade de decidir sobre questões políticas que tanto afetam nossas vidas.

A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) é presidente da Comissão de Assuntos Sociais

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