Perdas & Ganhos
Lúcia
Vânia*
A escritora gaúcha Lya Luft, mestra na arte de manusear as palavras,
encontrou a definição perfeita para titular seu best-seller sobre
a atual condição humana. Quando se desperdiçam adjetivos
para exaltar a condição feminina, é preciso recorrer à razão
para refletir sobre nossas “perdas e ganhos”.
É um
desafio desmistificar as armadilhas que criamos
e que nos impedem de desfrutar plenamente
as conquistas femininas das últimas
décadas. Para ocupar espaços
negados por séculos, as mulheres pregaram
uma igualdade entre os gêneros que,
hoje, admitimos, precisa ser revista.
Fruto
da emancipação feminina, mas
também da necessidade econômica,
as famílias dependem cada vez mais
das chefias femininas. Hoje, 35% dos lares
são comandados por mulheres e somos
mais de 40% da força de trabalho.
Situação jamais sonhada por
nossas avós que precisavam de autorização
do marido para viajar ou sair à rua.
Mas,
nem tudo são ganhos. Ainda pleiteamos
remuneração igual e as mesmas
oportunidades conquistadas pelos homens.
E, na vida privada, a mulher assume sozinha
a dupla jornada e a responsabilidade pelo
planejamento familiar.
É um
ponto que merece reflexão: o mercado
de trabalho nos impôs a dupla jornada?
Ou foi a sociedade que negou o suporte necessário
ao desempenho dos papéis de mãe
e de profissional? Esse é um problema
aflige a maioria das trabalhadoras de todas
as idades e condições sociais.
No entanto, com quem deixar os filhos é tratado
como assunto individual e não uma
questão de política pública.
Cabe a nós o trabalho político
de manter essa cobrança permanente,
bem como exigir educação de
qualidade para crianças e jovens,
e uma política eficiente de educação
infantil, apoiada por uma rede de creches
gratuitas.
Na
conta dos ganhos, avançamos na questão
do combate à violência contra
a mulher, que ganhou maior visibilidade e
passou a integrar a agenda nacional. Computamos,
também, o maior acesso à universidade
e a presença expressiva nos terrenos
profissionais estritamente masculinos, além
dos avanços do novo Código
Civil e nas leis trabalhistas, como a licença
maternidade.
Em
contrapartida, na lista de perdas, entra
o desgaste da saúde provocado pela
pressão do cotidiano. Doenças
que antes eram tipicamente masculinas, como
o câncer de pulmão e doenças
cardíacas, atingem hoje maior número
de mulheres. Na década de 70, por
exemplo, de cada 10 pessoas que sofriam enfarte,
nove eram homens. Em 2000, a proporção
quase se igualou: menos de 3 homens para
cada enfarte feminino.
No
afã de conquistar espaço, abrimos
mão de nossa condição
singular e agora pagamos um alto preço
por isso. Portanto, é a nós
que compete defender maiores investimentos
em políticas de saúde adequadas
e melhores condições de trabalho.
As
trabalhadoras compõem a maior parcela
da população diretamente afetada
pelos desalentadores indicadores econômicos.
Do total de 2,4 milhões de pessoas
procurando trabalho em seis regiões
metropolitanas analisadas pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE) em janeiro, 54,4% eram mulheres. A
mesma pesquisa apontou que 18,6% dos desempregados
estavam procurando o primeiro trabalho.
A
situação preocupante da economia
oferece hoje às mulheres a oportunidade
de retomar bandeiras erguidas com sucesso
em outros tempos contra a inflação
e em defesa do controle de preços.
Ainda mais: devemos nos posicionar de forma
determinada contra a corrupção
e em defesa da aplicação correta
dos recursos públicos, valorizando
o bom desempenho de prefeitas de diversos
partidos.
Sabemos
que as desigualdades não estão
relacionadas ao fato de termos nascido homens
ou mulheres. Mas, sim das relações
e dos papéis sociais. Sendo as relações
entre os gêneros construídas
culturalmente, elas podem ser transformadas.
O que depende da maior participação
da mulher em várias esferas, principalmente
a política.
Há um
imenso espaço a ser ocupado pela mulher
na vida pública, seja nas câmaras
de vereadores, nas assembléias, no
executivo ou no judiciário. Mas é preciso
perder pudores e ampliar nossa participação
partidária, ainda reduzida nas executivas
nacionais e regionais dos partidos, pois
isso se reflete no resultado da produção
legislativa, apesar da Lei de Cotas. E, por
conseguinte, nas leis que regulam costumes
e hábitos da sociedade.
Tenho
a expectativa da mudança desse quadro,
a partir da reforma política que pode
oferecer um eficiente instrumento para estimular
o acesso da mulher ao exercício da
política: o financiamento público
de campanha. Dessa forma, haverá maior
democracia na participação
partidária, de forma a consolidar
nossos ganhos. Eles serão efetivos
a partir do nosso empenho em participar ativamente
da vida pública. Sem recorrer às
receitas fáceis da sedução,
mas sem abrir mão do pensar e do agir
feminino. Não podemos mais delegar
apenas aos homens a responsabilidade de decidir
sobre questões políticas que
tanto afetam nossas vidas.
A
senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) é presidente
da Comissão de Assuntos Sociais |