Falha
Nossa
É lamentável
que a área social, descuidada no governo
Lula a ponto de precisar de campanha publicitária
para provar que existe, entre no rol de más
notícias.
Para desmentir acusações de imobilismo, o governo caiu em tentação
ao maquiar a verdade sobre a agricultura familiar. O Pronaf, importante instrumento
de geração de empregos na zona rural tem longa história
de sucesso. Dispensaria montar um falso cenário em propriedade particular
e pagar trabalhadores de carteira assinada para posar de pequenos agricultores.
A agência de publicidade assumiu a culpa e se comprometeu a refazer o
trabalho, sem gastos adicionais aos cofres públicos. Mas se o fato envolvesse
uma empresa privada, seria a completa desmoralização para o produto.
E não apenas para os profissionais encarregados de tornar públicas
as idéias e informações de seu cliente.
Campanhas publicitárias eficazes custam caro, exigem planejamento, organização
e compromisso com a veracidade das informações. Porque envolvem
o que há de mais preciso para uma empresa: a sua marca. Quando a Secretaria
de Comunicação se vê obrigada a tirar do ar peças
publicitárias enganosas, contribui para o desprestígio da área
social.
O constrangimento aumentou com a suspensão da propaganda do Bolsa-Família
por erro de informação sobre o valor dos benefícios. Desperdício
de tempo, dinheiro e expectativas, tal equívoco não alegra a
oposição. Preocupa sim, pelo despreparo dos responsáveis
pela gestão social que não conseguem explicar aos competentes
publicitários encarregados da imagem do governo o que é o Bolsa-Família
e quanto paga. Como pode então o brasileiro compreender o programa?
É meritório todo investimento voltado a informar o cidadão
sobre os benefícios a que tem direito. Em geral, os meios de comunicação
se encarregam dessa divulgação gratuitamente, pois é o tipo
de serviço que atrai leitores e telespectadores. Mas pela falta de transparência
e excesso de centralização o governo não consegue comunicar
seus feitos.
Na verdade, em vez de prestar contas à sociedade, a propaganda oficial
procurou vender ilusões. E escorregou sistematicamente na divulgação
do Fome Zero, a ponto do programa ser abandonado sem ter sido entendido pelo
país.
O desmentido parece virar hábito. O Primeiro Emprego, em fase de total
reestruturação antes mesmo de engrenar, chegou a ser ridicularizado.
Por inoperância, criou cerca de 500 vagas, apenas 0,2% dos 250 mil empregos
prometidos aos jovens!
Dados e informações sobre políticas públicas, orçamentos
e repasses de recursos devem estar disponíveis a qualquer hora e para
todo cidadão; seja parlamentar, publicitário ou beneficiário
do Bolsa-Família.
Trabalhar com números incorretos ou inflados é falta de ética.
Mas pode ocultar uma incompetência gerencial para operar programas complexos,
baseados em princípios democráticos e divisão de responsabilidades.
Na ânsia de improvisar ações para a propaganda, o governo
pulou etapas, como testes de implementação e correção
dos programas. Esse cuidado evitaria a duplicidade no cadastro da unificação
de quatro programas sociais que pagou a 323 mil famílias os benefícios
do Bolsa-Escola além do Bolsa-Família, durante seis meses.
A partir de abril, pelo menos 23 mil dessas famílias terão os
benefícios depositados, mas serão impedidas de sacar o dinheiro.
Serão avisadas para procurar as prefeituras. Esse problema sim exige
uma campanha de esclarecimento público, porque penaliza injustamente
os prefeitos e a população.
Durante a transição, o governo Lula foi advertido sobre a necessidade
de revisão do cadastro deixado em implantação. No entanto,
perdeu-se um ano em críticas, em vez de agir para correção
os problemas.
O Ministério do Desenvolvimento Social identificou a maioria das falhas
do cadastro do Bolsa-Escola. Era de se esperar. Para quem opera programas sociais,
a escola não é a instituição mais qualificada para
avaliar as necessidades econômicas da família. Mais recomendável é o
processo de cadastramento descentralizado. Ele permite que o agente de saúde
identifique a criança desnutrida. Que o assistente social chegue aos
grotões e encontre crianças sem documento e sem escola. E assim
por diante. Já o pagamento, deve ser universalizado para reduzir gastos
operacionais. Como é feito desde 2001, por meio da unificação
do cadastro e do pagamento para todo o Brasil e para todos os programas.
O país se empenhou para substituir a política do favor e da troca
pelo direito a políticas públicas consistentes. Foi graças à pressão
da sociedade que pudemos superar preconceitos da área econômica
e garantir recursos aos programas e ações sociais. Por isso cada
real é tão precioso. E não merece ser desperdiçado,
no momento em que o desemprego e a queda de renda tanto penalizam as famílias
brasileiras. |