Reforma
política já
Vejo
chegar ao fim o processo eleitoral de 2004
com um misto de frustração
e tristeza. E digo isso certa de que encontro
eco junto a milhares de cidadãos que
acompanharam, nesses dois últimos
meses, a disputa eleitoral em todo o País.
Essa
foi, sem dúvida, a eleição
que mostrou, com mais evidência, a
necessidade de o Congresso Nacional analisar
com profundidade e, se possível, votar
com rapidez a reforma política. Precisamos
de um processo eleitoral claro, em que candidatos
e partidos assumam honestamente suas posições,
dizendo a que vêm e o que pretendem
se eleitos.
O
que vimos no processo que se encerra domingo
foi a consumação de alianças
de cunho meramente eleitoreiro, nas quais
candidatos parecem sequer saber responder
quais são as premissas básicas
em que se assentam os programas dos partidos
a que são filiados.
Partidos
historicamente adversários dividiram
os mesmos palanques e candidatos que há pouco
eram tidos como aliados se colocaram em campos
opostos numa verdadeira luta fratricida.
Inimigos políticos distribuíam
elogios entre si, aliados da eleição
anterior passaram a ser contra os que ajudaram
a eleger, provocando perplexidade nos eleitores.
Tais
fatos não foram episódios isolados
nesse ou naquele município ou Estado.
Tornou-se prática corriqueira em quase
todo o País, desde as mais importantes
capitais até as menores cidades, sem
que os candidatos se mostrassem aos menos
constrangidos diante de seus eleitores mais
fiéis.
Alianças
foram articuladas em níveis federal
e estaduais e consumadas em níveis
municipais somente para a disputa de outubro,
visando não ao interesse das populações,
mas a cálculos estrategicamente manipulados
pelos chefes partidários e de acordo
com interesses desse ou daquele grupo.
Creio
não ser demais afirmar que a fidelidade
partidária chega ao fundo do poço.
Perde
com isso o Brasil e o eleitor que vai para
as urnas domingo sem saber se seu voto lhe
dará a garantia de um governo assentado
em propostas realmente sérias, ou
que represente somente uma vitória
de interesses.
Na
falta de um compromisso nos palanques, por
que deverá o candidato preocupar-se
com compromisso depois de eleito? Sentindo-se
dono de seu mandato, ele passa a se comportar
como uma instituição autônoma.
Os partidos não existem, são
aglomerados de interesses localizados. Diante
desse quadro, o eleitor acaba perdendo o
seu poder de fiscalização.
O
que se viu depois da eleição
de 2002 e, com certeza se verá a partir
dessa e ainda na de 2006, se o Congresso
não tiver a coragem de votar a reforma
política, será a migração
de políticos de um partido para outro,
de acordo com os ventos que sopram. Certamente,
a maioria quer estar de acordo com os ventos,
ainda mais quando a Lei de Responsabilidade
Fiscal colocou um freio nos gastos das campanhas.
Estar ao lado de quem detém o poder
bem pode ser a garantia de benefícios,
como se viu há pouco nos acertos entre
o partido do governo e aliados.
Para
evitar esses procedimentos que facilitam
a corrupção, como bem afirma
o presidente do Tribunal Superior Eleitoral,
ministro Sepúlveda Pertence, a adoção
do financiamento público das campanhas é a
solução viável. Segundo
o ministro, as eleições dependem
cada vez mais da utilização
dos meios de comunicação de
massa, de custos altíssimos, o que
tende a multiplicar os custos das campanhas.
Por isso, o presidente do TSE definiu que
o financiamento eleitoral é “o
desafio maior do aperfeiçoamento do
processo político”.
Somente
uma reforma política séria
pode coibir a verdadeira indústria
das eleições em que se transformou
esse processo de valorização
da cidadania brasileira.
Não
sem motivo o saudoso governador Mário
Covas, um dos mais importantes líderes
políticos do Brasil, dizia: “O
instituto da fidelidade partidária é uma
necessidade absolutamente indispensável”.
A
fidelidade, aliada a uma dose razoável
de seriedade de todos os atores envolvidos
no processo, seria, pois, extremamente saudável
neste importante momento da vida nacional.
L úcia
Vânia é senadora do PSDB-GO |