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02.10.03

Envelhecer com dignidade

Lúcia Vânia

“A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida”. Artigo 230, Constituição Federal.

Felizes as sociedades que respeitam seus idosos. Nós, no Brasil, ainda nos encontramos distantes de tal sabedoria. Por isso, ao escrever o artigo 230 da Constituição Federal, nos arriscamos a incluir uma obviedade: o compromisso do país com os direitos de seus cidadãos mais velhos.

Mas para garantir que esse compromisso se efetivasse, foram necessárias outras ações. Como secretária de Assistência Social, participei da reformulação das políticas sociais no início do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Principalmente na Política Nacional do Idoso, a Lei 8.842, de 1994, que criou normas para os direitos sociais da terceira idade, garantindo autonomia, integração e participação efetiva como instrumento de cidadania.

Votamos recentemente no Senado Federal o Estatuto do Idoso, ontem sancionado, para garantir os benefícios conquistados. Na verdade, respeito não se garante apenas por lei. Temos consciência de que a legislação, por mais eficiente que seja, não resulta em ações instantâneas de atendimento de demandas sociais. Representa, no entanto, o reconhecimento da sociedade à necessidade dessa faixa da população.

Nessa faixa, acima de 60 anos, encontram-se 15 milhões de brasileiros: 8,6% da população, segundo o IBGE. Em treze anos, teremos a 6ª maior população idosa do mundo! Para atender com dignidade a esse contingente, são necessárias diversas intervenções sociais, econômicas e ambientais, que permitam ao cidadão desfrutar seus dias, sem abrir mão da independência e do respeito próprio.

Incluir essas questões na agenda nacional, ao aprovar com rapidez o Estatuto do Idoso no Senado Federal, representou o reconhecimento da vontade política dos senadores em sintonia com a Câmara, com o governo e com a sociedade, para dar urgência à questão dos direitos de um segmento tão expressivo da população brasileira.

Para defender os maiores de 60 anos, contamos com o empenho de dois jovens senadores que apresentaram projetos de lei da Câmara e do Senado para aperfeiçoar a Lei 8842. Paulo Paim, desde 1997, na condição de deputado federal pelo PT, propõe e debate com a sociedade o Estatuto do Idoso. E Sérgio Cabral, do PMDB, cuja tradição de luta pelos direitos dos idosos me levou a entregar-lhe a relatoria do projeto, uma honra que me coube como presidente da Comissão de Assuntos Sociais.

Agora, mais importante do que cada um dos artigos do Estatuto será o despertar da sociedade brasileira para um olhar mais respeitoso aos mais velhos. Em um país marcado pela desigualdade e dificuldade de se alcançar índices de crescimento econômico suficientes para eliminar a pobreza, a legislação é incapaz de resolver por si todos os problemas de uma parcela tão expressiva da sociedade. Mas o estatuto contribui para o amadurecimento da consciência social e preparação do Brasil para enfrentar o envelhecimento da nossa população. Estão criadas as condições para promover a longevidade com qualidade de vida.

Publicado no diário da Manhã

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