Um
debate a favor da vida
O
Senado Federal começa a discutir projeto
de lei que trata de um dos temas mais polêmicos
a envolver o futuro da sociedade brasileira.
Trata-se do projeto do governo (PLC 9/2004)
que institui a nova Lei de Biossegurança
no País.
Reunido
em uma única peça, o projeto
estabelece uma série de normas de
segurança e mecanismos de fiscalização
de atividades que envolvem a pesquisa com
seres vivos. Também cria o Conselho
Nacional de Biossegurança e faz uma
completa reestruturação na
Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança, a CTNbio.
Trata-se
de uma legislação complexa
que afeta desde a comercialização
de alimentos geneticamente modificados às
pesquisas com células-tronco embrionárias,
apontadas como uma das esperanças
no tratamento de doenças que matam
jovens e crianças, como as neuromusculares,
ou incuráveis como o diabetes, e ainda
o mal de Parkinson e Alzheimer.
Embora
estejamos cientes da urgência em votar,
tanto por parte do governo quanto da própria
comunidade científica que teme a perda
de mais tempo no desenvolvimento de suas
pesquisas, não podemos concordar em
fazê-lo antes de um debate profundo
e esclarecedor com todos os segmentos envolvidos,
tanto científico quanto filosófico
e ético.
Nesse
sentido, requeremos ao Senado a realização
de audiências públicas conjuntas
entre a Comissão de Assuntos Sociais
e as Comissões de Educação,
Constituição e Justiça
e Assuntos Econômicos, para ampliar
o debate.
Há muitos
aspectos a serem considerados.
O
relatório da Organização
para Agricultura e Alimentação
da ONU (FAO), divulgado em maio, afirma que
a biotecnologia poderia ajudar os produtores
dos países em desenvolvimento a alimentar
mais dois bilhões de pessoas em 30
anos. Contudo, até agora, poucos países
e apenas alguns grupos têm se beneficiado
do avanço da ciência nessa área.
Um
caso que merece reflexão é o
da China, onde mais de 5 milhões de
pequenos produtores trabalham em regime de
agricultura familiar (o que corresponde a
75% dos agricultores que usam transgênicos
no mundo). Os produtores de algodão
transgênico se beneficiaram das conseqüências
positivas da redução de 24kg
a 63kg por hectare de pesticidas. Essa tecnologia
só foi acessível aos pequenos
produtores, porque as sementes transgênicas
foram desenvolvidas pelo setor público,
que as ofereceu por preços baixos.
Apesar
destes benefícios, é fato que
os investimentos feitos ainda não
se concentraram com força na melhoria
do valor nutricional de culturas importantes
para a alimentação, como arroz,
mandioca, feijão e outros, que são
os alimentos mais consumidos pelas camadas
populacionais mais pobres.
Reconhecidamente,
a fome é um dos maiores flagelos da
humanidade.
Se
os alimentos transgênicos, como a própria
FAO admite, podem minimizar este flagelo,
não será esta a nossa chance
de decidir sobre o futuro de pesquisas e
investimentos que venham determinar a possibilidade
de correção desta grande injustiça
social, com a fiscalização
devidamente regulamentada?
Igualmente
importante é a questão do uso
das células-tronco embrionárias.
Academias
de ciência de 63 países, inclusive
do Brasil, defendem as pesquisas com células-tronco
embrionárias para fins terapêuticos.
Mas o debate divide filósofos, religiosos
e representantes da área jurídica.
Ao
defender as pesquisas, os especialistas afirmam
que aqueles que se opõem estão,
na verdade, agindo contra a vida. Eles estariam
impedindo que pessoas com doenças
gravíssimas, incluindo crianças
e jovens, possam receber a única esperança
de tratamento que a ciência tem a oferecer.
Por
outro lado, os argumentos religiosos não
podem ser esquecidos, ainda mais num país
como o Brasil, onde a fé, independente
de credos, parece mover a população.
O
ambiente de diversidade de opiniões
e realidades que cercam o assunto torna o
Congresso Nacional um foro adequado e oportuno
para o tratamento racional, ético
e justo da complexa questão que envolve
a Lei de Biossegurança.
Ao
regulamentar de forma amadurecida essa matéria,
o Congresso vive um daqueles momentos em
que justifica plenamente as suas funções
de casa do povo. Somente nos libertando de
nossos pré-conceitos mais arraigados
poderemos votar esta matéria com a
consciência de que o futuro de milhões
de pessoas está presente em nossas
mãos.
Lúcia Vânia
(PSDB-GO) é presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado
Federal
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