Da
Esperança ao Desencanto
A
Oposição não comemora
a queda de popularidade do Presidente Lula.
Mas lamenta a crise que chegou às
ruas. Uma crise de autoridade, fruto da inapetência
do Planalto pela administração
do dia a dia, que abriu espaço para
desavenças entre integrantes do governo,
Partido dos Trabalhadores e aliados.
O
vácuo de poder tornou públicas
as visões diferentes sobre a condução
da política econômica e as discordâncias
entre Gabinete Civil e Ministério
da Fazenda. Depois de suportar sacrifícios,
aumento de impostos e aguardar intermináveis
reformas ministeriais, a sociedade não
se deixa mais contagiar pelo otimismo da
publicidade oficial e cobra resultados.
Com
a imensa confiança depositada após
as eleições, o governo Lula
perdeu a oportunidade histórica de
implantar seu projeto de Nação,
favorecido pelas condições
internacionais. Apesar da tolerância
inicial da Oposição, a falta
de gerenciamento e as disputas internas de
poder aumentaram o fosso entre discurso e
ação ao longo desses 500 dias.
Contribuíram
para a letargia do Executivo o excesso de
35 ministérios, com superposição
de atividades e ações desarticuladas.
A ineficiência da gestão agravou-se
pela troca de técnicos capacitados
por quadros políticos inabilitados
para funções administrativas.
Mudança de rumos e descompromisso
com a continuidade dos programas atestaram
a falta de projeto na área social.
Sem
uma visão estratégica do país,
a deterioração da infra-estrutura
(estradas e portos) colocou em risco as exportações,
motor da economia e responsável pelos
indicadores econômicos positivos. A
dificuldade de conviver com os marcos regulatórios
enfraqueceu as agências reguladoras,
produzindo instabilidade econômica
e inibição de futuros investimentos.
No
cenário político, a concentração
de poder no chamado núcleo duro do
governo manteve a área social a reboque
da econômica. É inegável
a diferença de status entre ministros
e a limitação de poder dos
responsáveis pelas políticas
sociais. Sem mencionar a escassez de recursos,
devido à imposição de
um superávit acima do exigido pelo
acordo com o FMI, que levou ao esforço
fiscal excessivo e a cortes no orçamento.
Ao
governo dos trabalhadores faltou ainda interlocução
com os movimentos sociais e com os servidores
públicos. Conflitos envolvendo o MST
e os índios e as greves nos serviços
essenciais propagam a sensação
de paralisia do Executivo.
O
Congresso Nacional também se vê imobilizado
pelo excesso de Medidas Provisórias
e impedido de discutir projetos essenciais
como as leis de Biossegurança, de
Recuperação de Empresas e da
habitação popular.
O
país exige resposta aos alarmantes índices
de desemprego e ao primeiro PIB negativo
em mais de uma década o que demanda
mais políticas sociais. No entanto,
gastou-se pouco e mal nessa área,
como alertaram a Oposição e
a imprensa em relação aos desacertos
do Fome Zero, do Primeiro Emprego, do Programa
de Erradicação do Trabalho
Infantil e do Sentinela.
Ao
fim do primeiro trimestre de 2004, após
as denúncias de corrupção
envolvendo o principal assessor do ministro
da Casa Civil, José Dirceu, estão
mais expostos o descompromisso com a ética,
a fragilidade das alianças e a desagregação
do governo.
A
Oposição não compactua
com tais desvios e exige reação à apatia
oficial. Ela passa pelo restabelecimento
da interlocução com o Congresso,
redução de MPs e amplo debate
sobre combate ao desemprego, com uma política
consistente de reforma agrária. Seria
recomendável reduzir a centralização
excessiva, e não criar duas novas
pastas. Além de aperfeiçoar
a gestão dos programas sociais, para
recuperar o descrédito em que foram
lançados e restabelecer as parcerias
com as prefeituras.
É urgente
o empenho no combate à corrupção,
bem como aperfeiçoar mecanismos de
controle social dos programas. E mais: é preciso
unificar o discurso na área econômica,
com firme retomada dos investimentos, além
de reformular o acordo com o Fundo Monetário
Internacional, considerando gastos em infra-estrutura
e saneamento como investimento e não
despesa. Isso permitiria liberar recursos
para construção civil e saneamento,
capazes de gerar mais empregos.
À Oposição
cabe alertar, cobrar e fiscalizar as ações
do governo. A autoridade para escolher os
rumos a seguir nos próximos 33 meses,
compete ao presidente Lula, eleito para administrar
o Brasil.
Lúcia
Vânia é presidente da Comissão
de Assuntos Sociais do Senado e vice-líder
do PSDB |