Elas
querem ser ouvidas
Erika Klingl
Número de
candidatas cresce - este ano há 73.827
disputando uma vaga de vereador -, mas ainda está
longe da cota prevista em lei, de 30% das vagas
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Elas são 51,8% do eleitorado
e chefiam quase um quarto das famílias
do País, mas continuam longe de ocupar
seu devido lugar na política. As candidaturas
de mulheres nas eleições municipais
cresceram muito pouco em relação
ao total registrado há quatro anos. Somam
22,14% dos concorrentes inscritos às Câmaras
Municipais e 9,33% às prefeituras, aponta
levantamento do Centro Feminista de Estudos e
Assessoria (Cfemea), realizado a partir de dados
do Tribunal Superior Eleitoral. Em 2000, eram
19,14% de candidatas a vereador e 7,59% a prefeito.
O crescimento da participação feminina
é de, respectivamente, 3 e pouco menos
de 2 pontos porcentuais.
Ao menos na disputa para as Câmaras Municipais,
as mulheres deveriam representar 30% das candidaturas.
Nenhum partido, porém, alcançou
esse índice de forma agregada no País.
A Lei de Cotas, no formato válido desde
1997, estabelece que "cada partido ou coligação
deverá reservar o mínimo de 30%
e o máximo de 70% para candidaturas de
cada sexo" nas eleições proporcionais.
"Desde então, a presença da
mulher na política cresceu; o resultado
é positivo, mas é insuficiente",
avalia a socióloga Almira Rodrigues, diretora
do Cfemea. "A baixa representação
feminina distorce a democracia."
O aumento de candidatas este ano é pequeno,
insiste ela, e deverá ter pouco efeito
sobre o total de mulheres eleitas. "Como
a política local favorece a participação
feminina, esperávamos chegar a 100 mil
candidatas, não às atuais 73 mil."
De acordo com o estudo, dez grandes partidos -
PMDB, PT, PSDB, PFL, PP, PTB, PL, PDT, PPS e PSB
- lançaram 76,6% das candidatas este ano,
mas são os partidos nanicos que, proporcionalmente,
dedicaram maior espaço a elas.
"PSTU, Prona, PAN, PTN, PCB e PSDC chegaram
a superar os 30% em alguns Estados", conta
Almira. "Isso pode acontecer porque a competição
interna nesses partidos é menor."
Outro sinal, segundo ela, de que a Lei de Cotas
não resolve o problema. "Devemos criar
mecanismos como a reserva de 30% dos cargos nas
direções partidárias, entre
outros."
Hoje, 13 dos 27 partidos têm secretarias
dedicadas às mulheres. E quatro reservam
vagas nas suas direções: PT, PV,
PDT e PPS.
Falta - "Interessa muito para o PSDB cumprir
a Lei de Cotas e ter mais candidatas", diz
o presidente nacional do partido e candidato à
Prefeitura de São Paulo, José Serra.
"O que acontece é que faltam mulheres
interessadas em candidatar-se." Os mecanismos
de incentivo à participação
feminina são relativos, acredita o ex-ministro.
"É preciso ter muita vontade para
ser candidato. O estímulo tem de vir mais
da base partidária." A legenda tem
mulheres na direção, destaca ele,
mas não guarda vagas. "Temos uma certa
correlação de forças, é
difícil estabelecer essas cotas."
Um projeto de lei de autoria da deputada Luiza
Erundina (PSB), primeira prefeita de São
Paulo e novamente candidata, garante 30% das verbas
do fundo partidário e da propaganda política
no rádio e na TV - fora do período
eleitoral - para incentivar a participação
feminina. O projeto, de 2001, está na Comissão
de Constituição e Justiça
da Câmara. "A mulher é mãe,
cuida da casa, trabalha fora e não foi
educada para a prática política.
Faltam condições mínimas
para que ela participe", diz Erundina. A
iniciativa tem o apoio do Cfemea.
"Podemos discutir isso, mas temos de cuidar
para que não prevaleça uma visão
paternalista sobre as mulheres", afirma o
presidente do PT, José Genoino, que assim
como Serra faz ressalvas ao projeto. A cota feminina
na direção do PT, pondera Genoino,
é muito positiva. "A visão
sobre os problemas é mais ampla."
O partido, destaca ele, mantém várias
atividades voltadas para a inclusão.
"A mulher ainda tem de romper o preconceito
que ela mesma têm sobre seu lugar no poder."
Pesquisa da Fundação Perseu Abramo,
indicava, em 2002, que 36% de 2.502 entrevistadas
tinham alguma restrição para a capacidade
de comando da mulher nas três esferas de
governo.
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