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Para catadores e governo, incinerar lixo deve ser útima opção

Incinerar lixo pode levar à perda de materiais recicláveis, além de liberar gases tóxicos na atmosfera, argumentam catadores e governo

Uma das preocupações é que materiais recicláveis possam ser incinerados, exigindo nova extração de matéria prima para produzir os mesmos itens. Outro problema apontado são os gases tóxicos liberados pelos incineradores

CÉSAR BORGES

Quando uma subcomissão foi à Alemanha, ouvi que naquele país não é permitido mais aterro sanitário. Ou seja, o lixo passa por todo um processo de seleção para reciclagem, mas sempre no fim tem algum rejeito inerte, pedaço de madeira, de colchão etc., que não é possível reciclar, e que termina indo para grandes incineradoras. Verifiquei uma delas perto da cidade de Hallenberg, que fornece energia para um grande parque industrial.

Na Alemanha, já evoluíram, já não têm aterro sanitário. Ou é reciclagem completa ou incineração.

SILVANO COSTA

A diretiva europeia coloca nesses termos, mas esses países já mudaram de estágio. O Brasil ainda está na fase dos lixões... O que se quer fazer no Brasil é um pouco do que aconteceu em Portugal, do que já aconteceu nesses países da Europa. Eles definem metas iniciais em que se eliminam os lixões, fazem a reciclagem, num processo gradativo, até colocarem nos aterros apenas o que é rejeito.

Mas a diretiva europeia, na verdade, não proíbe os aterros. Os aterros seriam apenas para resíduos inertes. E tem que se fazer recuperação energética dos rejeitos, valorização energética, como eles chamam. É algo na perspectiva do que está colocado no artigo 9º.

O artigo não proíbe a valorização energética ou a recuperação energética dos resíduos. Só coloca uma hierarquia, porque senão se vai incinerar todo o material que é passível de reciclagem. Senão, o Brasil vai acabar tendo que extrair matéria-prima, para gerar um produto que tem resíduo, e que, depois, vai ser incinerado.

O Ministério do Meio Ambiente não é contra a incineração. Mas devem ser discutidas também as questões dos resíduos, dos efluentes atmosféricos, sempre nessa perspectiva.

Energia é gasta para tirar o material da natureza, depois se recicla, se reutiliza e, finalmente, se gera energia do que for rejeito.

Vamos fazer uma visita ao Rio Grande do Sul. Segundo o consórcio municipal local, 80% dos resíduos são reciclados ou reutilizados. Sobram 20% como rejeito. Nesse caso é até possível pensar em fazer uma valorização energética, porque todo o processo foi esgotado.

O que queremos ver no país é exatamente isso, trabalhar a perspectiva de reciclar o máximo, reutilizar o máximo, e, depois, fazer a valorização energética apenas do que não for passível de reciclagem e reutilização.

ROSALBA CIARLINI

Passamos a palavra a Ronei Alves da Silva, do Movimento Nacional dos Catadores. É doutor na área de catadores de produtos recicláveis.

RONEI SILVA

O Movimento Nacional de Catadores é terminantemente contra as queimadoras.

Entendemos que, num primeiro momento, a desculpa para utilização das queimadoras vai ser para queimar aquilo que não é reciclável, mas a gente sabe que para que essas queimadoras possam funcionar, elas têm que ter volume, como o ilustre senador explicou, como acontece hoje com as que serviriam para reciclar pneu.

E que, para preencher essa condição, para que elas possam funcionar, vão colocar tudo, o que é reciclável e o que não é, dentro dessas queimadoras. A gente sabe que lixo, resíduo, material reciclável, tudo isso é matéria transformável. O que a gente tem que fazer é zelar para que seja transformado de forma correta.

Simplesmente queimar, acho que não é o ideal para nós. Por quê? Todos os países mostrados têm mais recurso natural. Eles são ricos, vêm aqui, pegam aquilo que precisam, utilizam o que a gente tem para produzir e pronto, o que sobrar lá eles queimam.

Temos que mudar esse pensamento. A gente não tem que agir como eles agiram lá, queimar tudo, cortar tudo e fazer como eles estão fazendo.

Temos que fazer diferente, que reutilizar tudo. O Movimento Nacional de Catadores é contra essas queimadoras.

CÉSAR BORGES

Como relator, quero, o mais rápido, me desincumbir do meu papel para que, se possível, o Brasil possa ter esse marco regulatório na comemoração do Dia Nacional do Meio Ambiente. Se não é o ideal, é um avanço; mas o ideal sempre é difícil de se alcançar. O inimigo do bom é o ótimo. Então vamos para o bom.

ROSALBA CIARLINI

Senador César Borges, fica aqui uma sugestão. Procure saber a experiência de Portugal que reduziu drasticamente o número de lixões, fazendo um fundo municipal de apoio às cidades.