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Catadores querem ter sua atividade regulamentada

Falta de coleta seletiva no país faz com que catadores recolham material reciclável no lixo. Para representante da categoria, nova lei pode mudar a visão da sociedade sobre a atividade, que poderá ser regulamentada

Exposição de Ronei Alves da Silva, presidente da Central das Cooperativas dos Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito federal e Entorno e representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis

Eu fiquei feliz com todos os dados que o Rafael Lucchesi acabou de passar, porque isso mostra tudo aquilo que a gente tem feito em todos esses anos de trabalho, esse processo histórico dos catadores nos lixões, nas ruas, trabalhando, tirando ali todo dia o seu sustento, para si e para sua família.

Mas o que me deixa triste é que tudo isso que o Brasil tem feito com relação à reciclagem não se deve a uma consciência ambiental ou a todo um processo de política pública. Isso aconteceu por causa da necessidade de um povo que sobrevive da coleta desses resíduos.

E eu acredito, hoje, que se a gente conseguir que essa lei seja aprovada, aí sim as coisas vão mudar. Eu acredito que vai ser uma mudança de paradigma. Nós, catadores, vamos deixar de ser vistos como mendigos, como lixeiros, como catadores de lixo. Porque nós não somos catadores de lixo, somos catadores de material reciclável. Infelizmente, os materiais recicláveis vêm no meio do lixo porque não existe coleta seletiva.

Assim, com a implementação dessa lei, se efetivamente acontecer, a gente acredita que, aí sim, vai haver uma mudança e as pessoas vão nos ver como catadores de material reciclável.

Só pra vocês terem ideia, aqui no Distrito Federal são 22 cooperativas e associações de catadores. Trabalhamos ali no Lixão da Estrutural, que não é um aterro, é um lixão dentro das áreas de transbordo, aqui no Distrito Federal, nas ruas e até aqui atrás da garagem do Senado, recolhendo todo esse resíduo sem ser separado. A gente separa, tria os diversos materiais e é deles que a gente tira nosso sustento.

Ali atrás, lá no fundo, estão alguns presidentes dessas associações e cooperativas. Mais de 20 presidentes estão ali, representando esses quatro mil trabalhadores de Brasília e isso é só para vocês terem idéia da ponta do iceberg.

A gente agora está sendo visto. Se eu estou aqui, é porque nós estamos sendo ouvidos. Mas, mais do que ser vistos e ouvidos, nós queremos ser atendidos.

E ser atendidos, para nós, é parar de trabalhar no sol quente e na chuva. É parar de trabalhar na rua, de qualquer jeito. É a gente poder ter um teto para trabalhar e ser remunerado por esse serviço que a gente presta.

Infelizmente, hoje, essas quatro mil toneladas de material que nós retiramos no Distrito Federal, que iam para o aterro, nós não recebemos um centavo por esse serviço prestado. Nós trabalhamos, fazemos um trabalho ambiental que não é reconhecido.

Então, com a aprovação dessa lei, a gente acredita que isso possa mudar, não é? Teve a lei anterior, que é a lei orgânica, a 11.445, que estabelece que as cooperativas e associações não precisam passar por estação pública para fazer o recolhimento dos resíduos. Mas só essa lei não basta.

A aprovação desse projeto hoje é de fundamental importância para essa mudança de paradigma, para que a gente possa ser visto como trabalhadores, não como mendigos, lixeiros e assim por diante.