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Universidade: doutores que não chegam às empresas e à pesquisa na indústria do Brasil

A maior parte dos pesquisadores brasileiros está nas instituições de ensino superior — 67,5% do total em 2010 —, enquanto nas empresas a proporção é de apenas 26,2%, bastante abaixo dos índices de Estados Unidos, Coreia, Japão, China, Alemanha, França e Rússia. Essa, reconhece o documento Balanço das Atividades Estruturantes 2011, do MCTI, é uma das causas da dissociação entre o avanço científico e a incorporação da inovação tecnológica à base produtiva, especialmente na indústria do Brasil.

De acordo com o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, uma pesquisa feita em 2008 com todos os doutores brasileiros formados entre 1996 e 2006 revelou que quase 80 mil deles estavam no Brasil, 97% empregados. Desse total, 80% atuavam no setor educacional. Outros 11% estavam na administração pública e menos de 5% nas empresas. Nos Estados Unidos, a proporção de doutores na indústria chega a 40%, informou Oliva.

Segen Estefen, diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou durante o seminário promovido pela CCT do Senado que, “no Brasil, os doutores não vão para as indústrias, com raras exceções, como as estatais, a Petrobras e algumas empresas do setor elétrico. As empresas privadas não criam núcleos para fazer interface com a universidade. Sem um grupo de doutores, não tem como fazer a interface”.

Não é possível esperar que os menos de 50 mil cientistas que trabalham em pesquisa na indústria brasileira possam competir com os 166 mil que trabalham em empresas na Coreia do Sul e mais de 1 milhão de cientistas em empresas nos EUA, de acordo com Carlos Cruz, professor da Fapesp. “Mesmo que o Brasil tenha demonstrado alguns sucessos nessa área — como a Embraer, a Petrobras ou o agronegócio movido pela Embrapa —, falta-nos a capacidade de realizar isso repetida e continuamente”, alerta.


Dedicação exclusiva

Exigências para professores das universidades públicas do Brasil, como a dedicação exclusiva ou em tempo integral, foram consideradas por vários dos palestrantes como entraves à parceria com empresas e à participação desses pesquisadores em projetos inovadores fora do ambiente das universidades. A excessiva regulamentação, a falta de autonomia das universidades para firmar parcerias com a indústria e dispor do tempo dos professores e dos recursos completam o cenário inóspito para a pesquisa traçado pelos participantes do seminário.

Glaucius Oliva cita o exemplo norte-americano: “O professor universitário nos Estados Unidos pode abrir uma empresa no seu departamento, sem que esteja violando a legislação do tempo integral e educação exclusiva. No Brasil não pode. Se abrir uma empresa, pode ser processado, porque está violando o tempo integral e você é um funcionário público”.


Radicado nos Estados Unidos, o cientista e professor Marcelo Gleiser
explicou que lá o governo interfere menos na relação entre empresas
e universidades (Foto: Vagner Carvalho)

“Nos Estados Unidos, um projeto entre uma empresa e uma universidade não passa pelo governo. Tem que ser feito dentro das linhas oficiais, mas não existe controle governamental sobre o que a indústria pode ou não fazer com a universidade. Se a Sloan Foundation, que dá muito dinheiro à pesquisa, resolve dar US$ 20 milhões para pesquisa em desenvolvimento de tecnologia de raios X espacial, por exemplo, várias universidades vão apresentar projetos para a fundação. É uma competição duríssima, completamente desligada do governo”, exemplifica o cientista Marcelo Gleiser.

Eles têm carga horária de seis a 12 horas de aula por semana, devendo dedicar o restante do tempo à pesquisa.

Sumário

Indicadores de inovação tecnológica no mundo: a posição do Brasil nos rankings

Participação de commodities e de produtos de alta tecnologia na exportação do Brasil

Crise econômica mundial, exportação de commodities e primarização

Investimento em pesquisa e desenvolvimento, ciência, tecnologia e inovação no Brasil

Financiamento público nos países para pesquisa e desenvolvimento de tecnologia

Indústria no Brasil tem pouca participação nos produtos de inovação tecnológica

Laboratórios de pesquisa do Coppe na UFRJ

Convênios tecnológicos da UFCG, PB, referência em tecnologia e engenharia

Incubadoras de empresas no Brasil

Inovação, empresas e universidades: parques tecnológicos no Brasil

Leis federais e estaduais para incentivo de ciência, tecnologia e inovação no Brasil

Pesquisa, ciência, tecnologia e inovação começam na educação

Investimento em inovação tecnológica: Finep e os pesquisadores brasileiros

Universidade: doutores que não chegam às empresas e à pesquisa na indústria do Brasil

Formação em engenharia no Brasil: engenheiros para ciência e inovação tecnológica

Orçamento público de ciência, tecnologia e inovação: investimento do governo do Brasil

Desenvolvimento de pesquisas: NITs e redes temáticas

Programa Ciência sem Fronteiras: bolsas para estudantes e pesquisadores

Programas do CNPq para desenvolvimento de projetos de pesquisa em empresas

A Lei do Bem (Lei nº 11.196, de 2005)

Empresas privadas e leis de incentivo à ciência no cenário nacional

A economia do conhecimento: seminário sobre produção, ciência, tecnologia e inovação

Universidades do Brasil: poucas patentes e inovação tecnológica

Projeto de lei para setor de ciência, tecnologia e inovação

Recursos: o fundo social dos royalties de petróleo