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Crack chama a atenção para dependência química

Especialistas estimam que mais de 2 milhões de brasileiros usem a droga, cujo poder destrutivo é superior ao da maioria das substâncias ilícitas, devido ao fácil acesso, alta letalidade e precocidade do primeiro uso. Segundo cálculos da ONU, o mercado do crack  movimentou cerca de US$ 100 bilhões em 2009


ARTE: Priscilla Paz sobre fotos de Marcello Casal/EBC e David Ritter/Stockxchng

O consumo de substâncias psicoativas, lícitas e ilícitas, é um dos mais preocupantes problemas de saúde pública no mundo. A Organização das Nações Unidas (ONU)estima em até 270 milhões os usuários de drogas ilegais (6,1% da população mundial entre 15 e 64 anos de idade). Desse total, pouco menos de 10% podem ser classificados como dependentes ou “usuários de drogas problemáticos” e calcula-se que até 263 mil deles, principalmente jovens, morram anualmente, a metade por overdose.

As estimativas dão conta ainda de que a cocaína foi consumida no último ano por até 20,5 milhões de pessoas.

Na América Latina, apesar de o número de mortes estar bem abaixo da média global, essa é a droga mais letal, em razão do grande número de consumidores, seja da própria cocaína ou de seus subprodutos, entre eles o crack.

Dados escassos

Recente publicação da Associação Médica do Rio Grande do Sul confirma que, no Brasil, “ainda são poucos os dados disponíveis, insuficientes tanto para o atendimento eficaz de usuários como para nortear políticas públicas de prevenção. Os estudos, pesquisas e dados estatísticos sobre o crack ainda são incipientes, razão pela qual muito do que se ouve falar carece da comprovação de fontes seguras”.

Ainda assim, é possível afirmar que a droga se alastra rapidamente pelo país, chegando a praticamente todos os municípios em todas as regiões. As pesquisas em andamento estimam que pode haver até 2,3 milhões de usuários de crack no país.


Morador de rua exibe pedra de crack e cachimbo em cracolândia no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Foto: Marco Gomes/CC

Os dados também revelam que o poder destrutivo do crack é superior ao da maioria das drogas ilícitas, devido ao fácil acesso, à alta letalidade (aumenta o risco de morte em oito vezes em relação à população em ­geral) e à precocidade do primeiro uso.

A duração da intoxicação, de dez minutos, considerada baixa, leva à busca imediata por mais crack. Apesar dessa curta duração, consta que o crack produza efeitos até seis vezes mais potentes que os da cocaína.

Devido ao seu poder altamente viciante, o crack tem um mercado cativo, em crescimento, estimulado pelo custo menor, assim como os do óxi e da merla, em relação ao preço da cocaína. O mercado desse subproduto, lançado para popularizar o uso da cocaína, movimentou até US$ 100 bilhões em 2009, segundo cálculos da ONU.

O crack levou ao surgimento de pequenos produtores e traficantes, que se confundem com usuários nas cracolândias. Essa nova dinâmica do tráfico gerada pela disseminação do crack dificulta inclusive o trabalho das polícias. Em 2009, foram apreendidos 374 quilos de crack no país, número pequeno, mas crescente em todos os estados. Roberto Kinoshita, coordenador de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, afirma que, no início, os traficantes de cocaína não deixavam que o crack – assim como o óxi – entrasse no mercado porque ele desorganizava a estrutura do tráfico. Depois, no entanto, os traficantes perceberam que o crack é mais rentável do que a cocaína pura, tanto pelo baixo custo da produção quanto pela maior compulsão do usuário.

“Em termos de logística, [a produção do crack] dispensa laboratório e tem economia de escala. A base de consumo é muito maior, e não concentrada em determinadas populações com maior poder aquisitivo que consomem cocaína”, explica Roberto ­Kinoshita.

Frente a essa realidade, o Brasil não se preparou para tratar os seus dependentes de crack. Não bastassem as dificuldades inerentes ao atendimento médico e psicológico aos usuários, a rede de tratamento é pequena, precária e com profissionais pouco ­qualificados.